eu fui. afinal, desde quando eu sou de dar pra trás? ou pelo menos era o que eu teria dito se você também estivesse lá. teria dito exatamente isso, sorrindo nervoso e gesticulando engraçado. eu fui, como o prometido como o combinado como tudo tinha sido tão planejado, tão milimetricamente calculado que só poderia não dar certo. eu não acho que tenha dado errado. talvez, afinal, tenha sido essa a sua intenção. de que eu fosse pra me encontrar, não com você, mas comigo. pra eu mesma conhecer meu vestido comprido, minhas sandálias baixas, minha bolsa sem cor e meus cabelos coloridos. talvez mesmo antes, você já quisesse que eu conhecesse meu capuccino com chocolate e contasse todas as pintas das minhas mãos enquanto esperava por você. você me conhecia o bastante pra saber que eu não gostaria de estar ali sozinha, mesmo quando eu dizia que era suficiente e independente pra isso. e aí você quis me deixar ali sozinha, de propósito, pra ver se eu esperaria, pra ver se eu fugiria, pra ver se eu de fato poderia ser assim, só. ou talvez você estivesse ali. me olhando pelos vãos de porta, pelas frestas de luz, escondido atrás das mesas ou pilastras que se colocavam na distância que você construiu entre nós. tão tipicamente você... eu poderia ter te procurado pelos cantos, ter perguntado se alguém tinha te visto, ter deixado a conta pendurada no teu nome. eu poderia ter escrito um poema com teu nome. poderia ter ligado, escrito um anúncio no jornal. eu juro que fiquei ali, sentada, como você me pediu, quase uma pose pra retrato. engolindo aquele cigarro todo. aquele medo todo de você vir. aquela saudade que eu nunca tive, mas que refletia no porta-guardanapos.
eu poderia não ter ido. mas como é que eu ia saber?
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
terça-feira, 2 de setembro de 2008
em garrafas
todas as minhas palavras estão presas em garrafas. engarrafadas.
e todas as garrafas estão guardadas numa mesma estante, alta e comprida.
às vezes eu estico ao máximo as minhas mãos para poder alcançá-las; às vezes eu fujo delas.
cuspo as palavras que fervilham em mim e as exponho todas, nuas cruas secas feias e frias. ficam todas ali em cima da mesa, gritando por mim. escolho as que não me engasgam, ou as que me engasgam mais, e as engulo outra vez. bebo-as delicadamente. degusto cada sílaba, cada som, cada primeira intenção de significado. é preciso digerí-las. e aí sim elas estão prontas.
vomito-as lindas, com linhas, entrelinhas, linhas tortas. e elas dançam sem medo e com vontade, giram, jogam os braços pro ar, sentem a sutileza dos ventos entre seus contornos.
e aí, nesse momento de encanto estrelar eu as absorvo. e quem sabe muito duramente, as entendo. só às vezes entendo porque vieram, mas sempre sei que estão ali. me fazem companhia noite a dentro, dia a fora. perpetuam-se e propagam-se no mesmo ar de que foram feitas. seguro suas mãozinhas frágeis, como numa ciranda, e as aprisiono ali: nas garrafas.
que é pra poder vê-las de todo e qualquer lugar que eu vá. que é pra poder deixá-las em paz. que é pra poder deixá-las brilhar.
e todas as garrafas estão guardadas numa mesma estante, alta e comprida.
às vezes eu estico ao máximo as minhas mãos para poder alcançá-las; às vezes eu fujo delas.
cuspo as palavras que fervilham em mim e as exponho todas, nuas cruas secas feias e frias. ficam todas ali em cima da mesa, gritando por mim. escolho as que não me engasgam, ou as que me engasgam mais, e as engulo outra vez. bebo-as delicadamente. degusto cada sílaba, cada som, cada primeira intenção de significado. é preciso digerí-las. e aí sim elas estão prontas.
vomito-as lindas, com linhas, entrelinhas, linhas tortas. e elas dançam sem medo e com vontade, giram, jogam os braços pro ar, sentem a sutileza dos ventos entre seus contornos.
e aí, nesse momento de encanto estrelar eu as absorvo. e quem sabe muito duramente, as entendo. só às vezes entendo porque vieram, mas sempre sei que estão ali. me fazem companhia noite a dentro, dia a fora. perpetuam-se e propagam-se no mesmo ar de que foram feitas. seguro suas mãozinhas frágeis, como numa ciranda, e as aprisiono ali: nas garrafas.
que é pra poder vê-las de todo e qualquer lugar que eu vá. que é pra poder deixá-las em paz. que é pra poder deixá-las brilhar.
domingo, 27 de julho de 2008
milhões
devem ter milhões de luzinhas piscando ao meu redor mas eu não quero atender nenhuma delas. nem ouví-las com seus barulhos incômodos e estridentes da tecnologia. devem ter milhões de portas abertas, milhões de braços estendidos, milhões de estrelas caindo.
a questão é entrar ou não entrar, abraçar ou não abraçar, escolher, pedir, aceitar, e mais todos aqueles verbos em milhões de tempos que eu não aprendi.
esqueceram de me ensinar qual era o caminho mais curto, o mais fácil, o mais melódico. ou ensinaram, mas como eu não aprendo, eu acabo sempre escolhendo o mais difícil, o mais doído, o mais oscilante. do riso mais puro e fácil aos olhos cheios de água mais carcomidos que se poderia encontrar, isso é oscilar. e eu oscilo como toda a minha pulsação, como todos os meus perdões e culpas, como todas as minhas vontades de não-você e de não me sentir tão cansada, com tanto sono e tanta exaustão das coisas que eu mais quero.
numas vezes dá vontade de mim. noutras vezes dá vontade de nada.
a questão é entrar ou não entrar, abraçar ou não abraçar, escolher, pedir, aceitar, e mais todos aqueles verbos em milhões de tempos que eu não aprendi.
esqueceram de me ensinar qual era o caminho mais curto, o mais fácil, o mais melódico. ou ensinaram, mas como eu não aprendo, eu acabo sempre escolhendo o mais difícil, o mais doído, o mais oscilante. do riso mais puro e fácil aos olhos cheios de água mais carcomidos que se poderia encontrar, isso é oscilar. e eu oscilo como toda a minha pulsação, como todos os meus perdões e culpas, como todas as minhas vontades de não-você e de não me sentir tão cansada, com tanto sono e tanta exaustão das coisas que eu mais quero.
numas vezes dá vontade de mim. noutras vezes dá vontade de nada.
quarta-feira, 23 de julho de 2008
um, dois.. três
não acorda. não acorda não acorda. sente o cansaço doer o corpo, sente a dor latejar. da alma. não queira fazer sentido, eu não quero fazer sentido eu só quero deixar doer. deixa doer até que a alma afogue. afogue, respire respire, e volte.
quarta-feira, 18 de junho de 2008
o anacrônico
acordou num susto e sentou-se na cama. graças a deus foi só um sonho! não gostava desses sonhos tão reais, devia existir sempre aquela separação do inconsciente que te faz ter consciência de que aquilo não é de fato real é só obra dos seus pensamentos que não paravam nem na hora de dormir, era tudo consciente e inconsciente brincando de pique-pega. ah, calma! precisava se acalmar, respirar fundo. rodou a cabeça de olhos fechados, respirou lentamennnte. esticou os braços, espreguiçou. esticou os pés, sentiu que eles pesavam. pesavam. pensavam(?). pousou os olhos num canto do quarto e ficou. pronto, agora sim. agora passou.
levantou o corpo devagar. não era mesmo que seus pés pesavam?! a cabeça pesava também. definitivamente, precisava colocar seu filtro dos sonhos no sol. precisava devolver o livro pra biblioteca, mandar o email, comprar as frutas, visitar a mãe. precisava de um banho quente, sem se deixar ferver. despiu-se devagar. era toda devagar pela manhã. ligou o chuveiro. prendeu os cabelos com uma caneta. pôs os pés na água. podia até ouví-los chiar. olhou. olhou de novo. ai deus! chegou mais perto. vê direito! ai deus. cumprira-se. metamorfoseara-se.
nasceram as tais asas nos pés.
levantou o corpo devagar. não era mesmo que seus pés pesavam?! a cabeça pesava também. definitivamente, precisava colocar seu filtro dos sonhos no sol. precisava devolver o livro pra biblioteca, mandar o email, comprar as frutas, visitar a mãe. precisava de um banho quente, sem se deixar ferver. despiu-se devagar. era toda devagar pela manhã. ligou o chuveiro. prendeu os cabelos com uma caneta. pôs os pés na água. podia até ouví-los chiar. olhou. olhou de novo. ai deus! chegou mais perto. vê direito! ai deus. cumprira-se. metamorfoseara-se.
nasceram as tais asas nos pés.
domingo, 8 de junho de 2008
o mínimo
ela acordava e permanecia de olhos fechados, que era pra se adaptar. depois trançava os cabelos entre os dedos, entre os ombros e entre os próprios cabelos, e pensava que seria (mais uma vez) mais um dia igual: café forte e pão com manteiga, feijão com arroz e bife e batata, pão de queijo sem mais nada, sopa do que tiver. e os entreatos, é claro. mas para ela, eles eram ainda mais dispensáveis e desinteressantes, por serem tão exatamente sempre-iguais.
o que ela queria mesmo? aah, era poder caminhar do lado contrário da rua. ler o seu livro preferido pela décima nona vez, no meio de uma praça, de papo pro ar. sentar numa janela e ver a grama lááá embaixo, e sentir o vento entre seus pés e o sol entre seus cabelos soltos. 'pegar carona numa cauda de cometa' e contar todas as estrelas do céu sem ter medo das verrugas nos dedos. ela queria encontrar o pote de ouro atrás do arco-íris. ou o amor atrás de uma árvore.
o que ela queria mesmo? aah, era poder caminhar do lado contrário da rua. ler o seu livro preferido pela décima nona vez, no meio de uma praça, de papo pro ar. sentar numa janela e ver a grama lááá embaixo, e sentir o vento entre seus pés e o sol entre seus cabelos soltos. 'pegar carona numa cauda de cometa' e contar todas as estrelas do céu sem ter medo das verrugas nos dedos. ela queria encontrar o pote de ouro atrás do arco-íris. ou o amor atrás de uma árvore.
quinta-feira, 15 de maio de 2008
ao amor, ou como fazer um poema sem saber
o gasto o estrago.
a dúvida a subliminaridade.
a dor?
ardor!
não tenha tanto medo assim.
não tenhamos tanto medo assim.
não existe tanto tempo pra tanta coisa assim.
as coisas nascem sem saber. sem prever.
e por isso elas não tem explicação.
sentimento eu não explico. (me explica?)
inspiração não existe. existe o fluxo.
existe você. e eu.
e mais nada.
ou milhões de outras coisas que eu digo sem dizer e só você entende.
a dúvida a subliminaridade.
a dor?
ardor!
não tenha tanto medo assim.
não tenhamos tanto medo assim.
não existe tanto tempo pra tanta coisa assim.
as coisas nascem sem saber. sem prever.
e por isso elas não tem explicação.
sentimento eu não explico. (me explica?)
inspiração não existe. existe o fluxo.
existe você. e eu.
e mais nada.
ou milhões de outras coisas que eu digo sem dizer e só você entende.
entre cacos
era pra ser bonito como todas as coisas que me pesavam mas aí ele se subverteu. contorceu, feito minhoca.
eu não entendo de algos. eu não sei o que eles fazem ou deixam de fazer, por mais que me interesse por eles. eu sou apática pras coisas que não vejo. e mais ainda pras que vejo.
eu gosto de pontos. de frases curtas. de frases feitas. de frases. de frases feitas de palavras tortas.
eu sou sem novas. eu sigo os meus sapatos sem olhar pra onde eles vão porque eu já sei o caminho de cór.
mas acontece que eu não sei se o certo é mesmo de cór. ou de cor. mas de cór é preto e branco.
eu gosto de me sentir sozinha pra esperar alguém. e ouço as músicas do silêncio que as não-palavras dizem.
eu falo o pequenês de criança porque eu só quero crescer. sem ficar grande de mais.
eu ouço o jornal. eu leio o jornal. eu faço jornal. gostando de literatura.
eu grito mu(uuuuu)do pelas causas que me comovem. e pelas que eu nem sei.
eu me canso das coisas que eu não terminei.
"eu não sei. não sei. se isso é você. quem bate aí?"
eu acho que isso tudo não sou eu.
eu não gosto da primeira pessoa. do singular.
eu não entendo de algos. eu não sei o que eles fazem ou deixam de fazer, por mais que me interesse por eles. eu sou apática pras coisas que não vejo. e mais ainda pras que vejo.
eu gosto de pontos. de frases curtas. de frases feitas. de frases. de frases feitas de palavras tortas.
eu sou sem novas. eu sigo os meus sapatos sem olhar pra onde eles vão porque eu já sei o caminho de cór.
mas acontece que eu não sei se o certo é mesmo de cór. ou de cor. mas de cór é preto e branco.
eu gosto de me sentir sozinha pra esperar alguém. e ouço as músicas do silêncio que as não-palavras dizem.
eu falo o pequenês de criança porque eu só quero crescer. sem ficar grande de mais.
eu ouço o jornal. eu leio o jornal. eu faço jornal. gostando de literatura.
eu grito mu(uuuuu)do pelas causas que me comovem. e pelas que eu nem sei.
eu me canso das coisas que eu não terminei.
"eu não sei. não sei. se isso é você. quem bate aí?"
eu acho que isso tudo não sou eu.
eu não gosto da primeira pessoa. do singular.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
10 minutos
eu sinto falta de todas as palavras que eu não disse. aqui e lá. ah, não pense que elas não vieram, é tolice sua pensar assim.. elas vieram sim, vieram de enxurrada como sempre vem, trombando umas nas outras, atropelando-se, arrancando a unha do dedo mindinho do pé de tanta pressa. mas acontece que eu vendi minha alma ao tempo. (devo ter emprestado minhas ideologias toscas pra ele também.) é, eu dei pra ele. dei o meu tédio, a minha vontade, e dei tanta falta de vontade também. dei um tantinho de desprezo, despeito talvez.
o tempo é aquele reloginho desbotado da sua cabeceira, mas mais normalmente da sua cabeça mesmo. eu acho tão engraçado imaginá-lo tic-tac-queando como se me apressasse pras tantas coisas que eu não tenho que fazer. e de repente, tenho! ou melhor, tive, por que não dá mais tempo de fazê-las, o tempo delas já passou. você tá cansado de me ouvir reclamar e falar de tempo? é eu sei, eu também estou, também sou. eu sou cansada disso e de uma porção de outras coisas, mas isso são vícios, e você sabe como os vícios são. são vícios, oras! não dá pra largar assim do nada, exige todo um processo de adaptação. e definitivamente eu não sou boa nesse tipo de adaptação, nem adianta! eu continuo corcunda e mordendo os lábios e escrevendo em minúsculas e procurando conclusões para textos que não precisam tê-las e sendo agradável com quem eu não quero ser e dando nós nos meus cabelos já meio quebrados. ah, e eu ranco as minhas unhas e pelinhas da boca, de nervoso. eu também tenho gastrite de nervoso, e enxaqueca, e alguma coisa nos olhos que eu não sei o que é por que o médico não tem tempo pra mim (lá vamos nós pro tempo de novo!). e eu ainda tenho ciúmes. e medo.
e ainda tenho um vício, terrivelmente insuportável, que é falar de mim. falar esse monte de coisas reclamonas, desagradáveis e chatas e injustificáveis porque você não me pediu pra falá-las. eu deveria fechar o blog pra calar a boca. mas ele já fica tão de férias sempre que nem faz diferença não. vê se acostuma, tá? vai ser sempre assim. um velho vício, pros velhos vícios. e pronto, chega, minha boca já secou, ponto final.
o tempo é aquele reloginho desbotado da sua cabeceira, mas mais normalmente da sua cabeça mesmo. eu acho tão engraçado imaginá-lo tic-tac-queando como se me apressasse pras tantas coisas que eu não tenho que fazer. e de repente, tenho! ou melhor, tive, por que não dá mais tempo de fazê-las, o tempo delas já passou. você tá cansado de me ouvir reclamar e falar de tempo? é eu sei, eu também estou, também sou. eu sou cansada disso e de uma porção de outras coisas, mas isso são vícios, e você sabe como os vícios são. são vícios, oras! não dá pra largar assim do nada, exige todo um processo de adaptação. e definitivamente eu não sou boa nesse tipo de adaptação, nem adianta! eu continuo corcunda e mordendo os lábios e escrevendo em minúsculas e procurando conclusões para textos que não precisam tê-las e sendo agradável com quem eu não quero ser e dando nós nos meus cabelos já meio quebrados. ah, e eu ranco as minhas unhas e pelinhas da boca, de nervoso. eu também tenho gastrite de nervoso, e enxaqueca, e alguma coisa nos olhos que eu não sei o que é por que o médico não tem tempo pra mim (lá vamos nós pro tempo de novo!). e eu ainda tenho ciúmes. e medo.
e ainda tenho um vício, terrivelmente insuportável, que é falar de mim. falar esse monte de coisas reclamonas, desagradáveis e chatas e injustificáveis porque você não me pediu pra falá-las. eu deveria fechar o blog pra calar a boca. mas ele já fica tão de férias sempre que nem faz diferença não. vê se acostuma, tá? vai ser sempre assim. um velho vício, pros velhos vícios. e pronto, chega, minha boca já secou, ponto final.
domingo, 2 de março de 2008
alterego
ela vivia metida nos seus próprios sonhos. filha de uma geração que assistia a Xuxa dizer com seu sotaque carioca: 'não desista dox seux sonhox', ela aprendeu a assistí-los e interrogá-los, esquadrinhando perspectivas e analisando concretizações. aprendeu assim a sonhar comedidamente. sonhava com o que podia sonhar, com o que acreditava possível. deixe a Xuxa com seus sonhos impossíveis para lá. era idealista sim, admitia, mas era da sua maneira. um idealismo fingido que só ia até onde as mãos alcançavam. irritava-se com a hipocrisia e incapacidade daqueles sonhadores de mais, onde tudo é bonito de mais, possível de mais. sentia-se por vezes meio pessimista, porque desacreditava de mais.
mas era exatamente aí que morava a contradição. ela analisava tanto que acabava achando o jeito certo, a frestra por onde deixar os seus sonhos entrar. e era facilmente enganada por eles, que fingiam-se simples para que ela lhes desse passagem. se instalavam, folgados, e ela dizia: tá legal, fica aí. mas escondia-os logo que alguém os notava. escondia, olhava para os lados, disfarçava. negava de pé junto: não, não, esse sonho não é meu.
era sonhadora e hipócrita, como qualquer um.
mas era exatamente aí que morava a contradição. ela analisava tanto que acabava achando o jeito certo, a frestra por onde deixar os seus sonhos entrar. e era facilmente enganada por eles, que fingiam-se simples para que ela lhes desse passagem. se instalavam, folgados, e ela dizia: tá legal, fica aí. mas escondia-os logo que alguém os notava. escondia, olhava para os lados, disfarçava. negava de pé junto: não, não, esse sonho não é meu.
era sonhadora e hipócrita, como qualquer um.
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