deve mesmo ser assim, isso que as pessoas chamam de ciclo da vida.
o ciclo natural da vida é ver partir.
partir dessa pra melhor, dessa dimensão pra outra. partir pra outra cidade, outro estado, outro país. trocar de corpo. trocar de rua. de amor. porque trocar também é deixar partir.
o problema definitivamente, é quando todos partem ao mesmo tempo. e não é porque já é quase julho, mas apenas porque é tempo de partir. deixar para trás cômodos, coisas, corações.
de repente todos parecem ir embora, menos você. logo você. você que sempre achou que era a mais desprendida, a que mais quis ir pra longe. você é a que mais está por perto. talvez não estagnada, mas movendo-se aos milímetros. e não aos quilômetros, como você sempre quis. talvez por isso as partidas já não sejam tão sentidas, tão sofridas. e também talvez por isso você as sinta tanto. é contraditório, mas você de fato é assim: disfarça tanto e mente tanto pra si mesma que acredita.
então por fim, sem mais lágrimas, analogias ou o que quer que seja, deixe-os. deixe que partam. corte os cordões umbilicais ou todas as outras formas de ponte.
mas depois e o quanto antes, recosture os laços e emende os retalhos das vidas desprendidas em você.
Terça-feira, 30 de Junho de 2009
Quinta-feira, 11 de Junho de 2009
da espera
rabsica enquanto espera. rabisca.
mantém a calma. não liga, não vai embora.
espera. (e não desespera)
não ouve voz onde não tem.
não vê o que não está lá.
não há coração, onde não há.
mantém a calma. não liga, não vai embora.
espera. (e não desespera)
não ouve voz onde não tem.
não vê o que não está lá.
não há coração, onde não há.
Sexta-feira, 15 de Maio de 2009
alguma (ou nenhuma) verdade
na verdade, eu liguei porque queria te perguntar até onde vai o amor. mas eu desisti antes mesmo de você atender o telefone. antes mesmo de pensar em perguntar. porque talvez, assim como eu, você não faça a mínima ideia da resposta.
eu até poderia tentar saber sozinha, como venho tentando, mas sempre me dá aquela coisa, sabe? aquilo que me aperta o peito no fuuuundo. aquela angústia tão densa que me dá ânsia de vômito. aquilo que me deixa chata, reclamona e meio birrenta. mas a verdade mesmo, é que eu bem queria saber.
até onde vai a vontade de estar sempre junto, sempre perto, sempre de mãos dadas. sempre qualquer-coisa-desde-que-seja-junto. a mania estúpida de querer dormir abraçando tudo que é seu, pra fingir que já é você. a coragem de fazer tudo errado até que um outro tudo dê certo. até onde vai a saudade desmedida. o coração sempre prestes a se partir. a necessidade de contar, de ouvir, mesmo que seja só pra dormir tranquilo porque ouviu a voz do outro por x minutos.
mas talvez, na verdade, eu não queira saber. afinal de contas, quase sempre, saber pode ser doído ou demorado. pode ser só de um lado. e pode, até mesmo, ser invisível.
eu até poderia tentar saber sozinha, como venho tentando, mas sempre me dá aquela coisa, sabe? aquilo que me aperta o peito no fuuuundo. aquela angústia tão densa que me dá ânsia de vômito. aquilo que me deixa chata, reclamona e meio birrenta. mas a verdade mesmo, é que eu bem queria saber.
até onde vai a vontade de estar sempre junto, sempre perto, sempre de mãos dadas. sempre qualquer-coisa-desde-que-seja-junto. a mania estúpida de querer dormir abraçando tudo que é seu, pra fingir que já é você. a coragem de fazer tudo errado até que um outro tudo dê certo. até onde vai a saudade desmedida. o coração sempre prestes a se partir. a necessidade de contar, de ouvir, mesmo que seja só pra dormir tranquilo porque ouviu a voz do outro por x minutos.
mas talvez, na verdade, eu não queira saber. afinal de contas, quase sempre, saber pode ser doído ou demorado. pode ser só de um lado. e pode, até mesmo, ser invisível.
Segunda-feira, 27 de Abril de 2009
monocromático
agora fica assim: preto no branco.
as coisas já não são mais as mesmas, e eu já não sou mais tão crua. pinto minhas muitas cores em meio tons de cinza e você acredita.
as coisas querem se esclarecer. você diz que sim, mas não deixa. eu me esforço, e algumas coisas acabam surgindo: conclusões precipitadas, invenções, deduções, ponto-e-vírgula, pontos-final. mas no fim, vários pontos-final são reticências. só que pra mim já basta delas.
quero mais assim 'pão pão, queijo queijo', mais praticidade, mais realidade, menos fixação. mais contraste na falta de cor.
e as coisas continuam coisas e talvez não queiram se esclarecer. mas nós continuamos falando em metáforas.
as coisas já não são mais as mesmas, e eu já não sou mais tão crua. pinto minhas muitas cores em meio tons de cinza e você acredita.
as coisas querem se esclarecer. você diz que sim, mas não deixa. eu me esforço, e algumas coisas acabam surgindo: conclusões precipitadas, invenções, deduções, ponto-e-vírgula, pontos-final. mas no fim, vários pontos-final são reticências. só que pra mim já basta delas.
quero mais assim 'pão pão, queijo queijo', mais praticidade, mais realidade, menos fixação. mais contraste na falta de cor.
e as coisas continuam coisas e talvez não queiram se esclarecer. mas nós continuamos falando em metáforas.
Quarta-feira, 15 de Abril de 2009
páginas em branco, objetos coloridos
sabe quando você já não entende mais? é assim. você já não sabe se é mesmo tão necessário sentir ou ser, e se dá pra acreditar ou não. e isso por si só já é não acreditar. se esforçar pra não doer, dói muito mais do que se imagina. porque afinal, nem se quer se imagina.
é não se afogar na própria dor, se alçar pela própria consciência. mesmo que às vezes o que mais se quer é não ter tanta consciência. ficar imune.
e esquecer. apagar. se apagar. desapegar.
é não se afogar na própria dor, se alçar pela própria consciência. mesmo que às vezes o que mais se quer é não ter tanta consciência. ficar imune.
e esquecer. apagar. se apagar. desapegar.
Quarta-feira, 4 de Março de 2009
março
já é março... e mais uma vez tudo finge estar parado no lugar. perdidas no tempo e no espaço, as palavras se conjugam no ar que se acumula nos pulmões. vão perdendo seu brilho de bolha de sabão.
mais uma vez tudo estaca na indisciplina do tempo e no excesso de afazeres que poderiam não ter a menor importância. se não fosse você e o outro, e os medos e os planos pra daqui uma semana ou um ano ou sete. se não fosse a vontade de ser.
mais uma vez tudo vira vertigem e sonolência e você não pensa, só pra poder se perder de você. de mim. e se engana nessas máscaras de cristal. absolutamente inúteis. feito carnaval acabado.
tem coisa que não dá pra calcular: até onde vai uma dúvida existencial, até onde o amor pode ser estúpido, até quando vai se deixar costurar essa teia interminável de ilusão, até onde tudo pode não ser só ilusão, até quando vai o sacrifício, até quando vai deixar as pessoas se perderem. até quando um sorvete pode ficar fora da geladeira antes de derreter?
- só até março.
mais uma vez tudo estaca na indisciplina do tempo e no excesso de afazeres que poderiam não ter a menor importância. se não fosse você e o outro, e os medos e os planos pra daqui uma semana ou um ano ou sete. se não fosse a vontade de ser.
mais uma vez tudo vira vertigem e sonolência e você não pensa, só pra poder se perder de você. de mim. e se engana nessas máscaras de cristal. absolutamente inúteis. feito carnaval acabado.
tem coisa que não dá pra calcular: até onde vai uma dúvida existencial, até onde o amor pode ser estúpido, até quando vai se deixar costurar essa teia interminável de ilusão, até onde tudo pode não ser só ilusão, até quando vai o sacrifício, até quando vai deixar as pessoas se perderem. até quando um sorvete pode ficar fora da geladeira antes de derreter?
- só até março.
Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009
sshh
deixa o violão pra lá. esquece esse teclado compulsivo. chega dessa conversa tola e vem. vem e ouve o chiar das panelas, o sussurro dos carros, a textura dos cadernos. escuta o atrito da mão com o papel. ignora os sorrisos amarelos e tenta ouvir a cor do sol e o barulho do ar sacolejando cada uma das células do teu corpo.
(pssh...) ouve.
presta bem atenção nas confissões do teu travesseiro. cola teus ouvidos na tinta das paredes e escuta o som gelado que elas fazem. ouve o engolir em seco, e não a palavra. e se for pra ouvir palavras, ouça as que transbordam das fotografias. encoste o rosto com vontade em cima da mesa de madeira da tua sala de estar, grude seus ouvidos em todas as peças de madeira que encontrar pela frente e escute as vozes que saem de dentro delas. decore cada detalhe das histórias que elas vão contar. sinta o som do sangue a pulsar na ponta dos teus dedos. o do piscar de olhos. o da multidão murmurando, como se dissesse uma coisa só mas em tempos diferentes. ouça com a palma da mão o bater do coração - de outra pessoa.
(pssh...) ouve.
presta bem atenção nas confissões do teu travesseiro. cola teus ouvidos na tinta das paredes e escuta o som gelado que elas fazem. ouve o engolir em seco, e não a palavra. e se for pra ouvir palavras, ouça as que transbordam das fotografias. encoste o rosto com vontade em cima da mesa de madeira da tua sala de estar, grude seus ouvidos em todas as peças de madeira que encontrar pela frente e escute as vozes que saem de dentro delas. decore cada detalhe das histórias que elas vão contar. sinta o som do sangue a pulsar na ponta dos teus dedos. o do piscar de olhos. o da multidão murmurando, como se dissesse uma coisa só mas em tempos diferentes. ouça com a palma da mão o bater do coração - de outra pessoa.
Doriana
ela não sabia quantas vezes ele tinha olhado em seus olhos. talves duas, ou três. talvez mais. ou menos. cerca de duas vezes - e meia, porque a última não conta - nas vinte e sete vezes que tinham se visto. isso ela sabia de cor. vinte e sete vezes em dois meses, ou sessenta e um dias. ele deveria ter um metro e setenta e nove. peso não dava pra saber. duas pintas na bochecha esquerda. na última vez ela o encarou de frente e disse: sessenta dias.
ele não fazia a mínima idéia de a quanto tempo eles se conheciam. parecia muito. e pouco ao mesmo tempo. mas sabia exatamente todas as palavras que ela dissera nestas todas vezes. decorara de tanto repetir as cenas mentalmente. poderia até mesmo imitar seu tom de voz quando pronunciava certas palavras. uma delas era um número: sessenta.
ela nunca sentira tanto calor antes, em toda a sua vida, tinha certeza. nunca suara tanto, nem tivera os cabelos tão curtos e nem roupas tão leves. e mesmo depois de meses e meses debaixo daquele sol quente, ela não conseguira beber nem um gole d'água sem se lembrar da forma morta de sede com que ele bebia qualquer coisa. e olha que lá nem era quente, tinha sempre aquela brisa leve. leve e doce, porque tinha o cheiro dele.
ele ainda sentia frio. mesmo de cueca, meias, outras meias, calça, duas camisetas, blusa de lã, gorro, botas e luvas. pra ele a coisa que mais fazia falta na vida era aquele solzinho e a brisa leve. mas isso foi só até o dia em que a vira pela primeira vez: exatamente debaixo daquele sol, blusa vermelha de manga comprida, como se quisesse inventar o frio. ele bem sonhara em levá-la pra neve. e vestiu mais um casaco, lembrando do cheiro dela.
caminhavam de mãos dadas, serenos. olhos fixos nalguma coisa muito distante dali. não falavam palavra, porque já não era preciso. de longe eles eram, sem sombras de dúvidas, o casal mais bonito do mundo. de perto, o olhar dele era meio irônico e o dela meio neurótico. só pra desmentir. mas bastava a eles estar ali: as mãos bem atadas e o olhar no mesmo ponto distante, por mais que pra chegar até lá perfizessem mentalmente caminhos opostos.
as mãos permaneceriam dadas.
já que afinal, felicidade não tem nada a ver com perfeição ou com comerciais de margarina.
ele não fazia a mínima idéia de a quanto tempo eles se conheciam. parecia muito. e pouco ao mesmo tempo. mas sabia exatamente todas as palavras que ela dissera nestas todas vezes. decorara de tanto repetir as cenas mentalmente. poderia até mesmo imitar seu tom de voz quando pronunciava certas palavras. uma delas era um número: sessenta.
ela nunca sentira tanto calor antes, em toda a sua vida, tinha certeza. nunca suara tanto, nem tivera os cabelos tão curtos e nem roupas tão leves. e mesmo depois de meses e meses debaixo daquele sol quente, ela não conseguira beber nem um gole d'água sem se lembrar da forma morta de sede com que ele bebia qualquer coisa. e olha que lá nem era quente, tinha sempre aquela brisa leve. leve e doce, porque tinha o cheiro dele.
ele ainda sentia frio. mesmo de cueca, meias, outras meias, calça, duas camisetas, blusa de lã, gorro, botas e luvas. pra ele a coisa que mais fazia falta na vida era aquele solzinho e a brisa leve. mas isso foi só até o dia em que a vira pela primeira vez: exatamente debaixo daquele sol, blusa vermelha de manga comprida, como se quisesse inventar o frio. ele bem sonhara em levá-la pra neve. e vestiu mais um casaco, lembrando do cheiro dela.
caminhavam de mãos dadas, serenos. olhos fixos nalguma coisa muito distante dali. não falavam palavra, porque já não era preciso. de longe eles eram, sem sombras de dúvidas, o casal mais bonito do mundo. de perto, o olhar dele era meio irônico e o dela meio neurótico. só pra desmentir. mas bastava a eles estar ali: as mãos bem atadas e o olhar no mesmo ponto distante, por mais que pra chegar até lá perfizessem mentalmente caminhos opostos.
as mãos permaneceriam dadas.
já que afinal, felicidade não tem nada a ver com perfeição ou com comerciais de margarina.
Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009
o amargo da língua
é como se de repente eu não acreditasse em mais nada. e pode parecer um jeito estranho de se começar um primeiro texto de um novo ano, mas é fato. eu não acredito mais nela, nem nele, nem nela, nem neles todos. todas as palavras e atos e até mesmo afetos viraram pó e eu me lembro de todas as vezes em que eu pensei que eu era mais eles do que eu mesma. muito mais. e de certa forma ainda sou, mesmo que às avessas e aos pedaços e não querendo mais ser. o que faz a diferença agora sou mesmo eu, que não acredito mais.
amanheci cética de cansaço de todas as mentiras insistentes que me contam sem cessar, sem me dar o tempo de absorver.
dói o estômago, dói o peito, dói de vontade de gritar pra poder ficar sozinha sem deixar ninguém escapar, pelo menos não antes de ouvir meu grito. dói estômago e o peito e eu não sei mais qual dor vem de onde, quem é o quê e no que eu me transformo nessa história toda.
amanheci cética de cansaço de todas as mentiras insistentes que me contam sem cessar, sem me dar o tempo de absorver.
dói o estômago, dói o peito, dói de vontade de gritar pra poder ficar sozinha sem deixar ninguém escapar, pelo menos não antes de ouvir meu grito. dói estômago e o peito e eu não sei mais qual dor vem de onde, quem é o quê e no que eu me transformo nessa história toda.
Sábado, 20 de Dezembro de 2008
o buraco negro e a falta de ar
o que eu queria mesmo nem eu sei. mas deve ter gosto de chocolate e café. e talvez um pouco de mel também. tem essa vontade louca de querer tanto ao mesmo tempo. e de quase sempre não querer nada. nada, fora todo o resto.
tem sempre um buraco negro que se abre no meu peito pelas coisas que eu perdi sem nunca ter tido. talvez seja uma espécie de desesperança, ou apenas uma dose de pessimismo e realidade que me contam a verdade desse nunca ter tido. pessimismo e realidade andam quase sempre juntos. e não é que eu seja uma pessoa pessimista, mas é que as vezes eu sou mesmo assim, preto no branco.
tem ainda as coisas que eu tenho, as que eu não tenho, as que eu minto ter. todas elas eu quero. todas, absolutamente todas, por completo, recheadas até a borda. e talvez seja só pra depois ter me arrependido do querer. ou talvez por simples necessidade de se querer alguma coisa, essa necessidade que funciona como guincho, como uma corda que leva a gente pra frente. não querer nada deve ser sem graça porque a gente acaba ficando parado no lugar.
é por isso que eu quero tanto minhas bombas extra de ar, quero vira-tempos pra poder ser quatro de uma vez, quero minha casa, quero colo de mãe, quero fazer alguma coisa que seja verdade, quero escrever alguma coisa que mude a vida de alguém, quero tomar conta de tudo sem ser uma rabugenta por causa disso, quero ser menos chata e boazinha, quero falar bem menos, escrever mais e parar de fantasiar as coisas.
o problema nessa história de querer é que sempre tem umas horas, umas horas tristes e demoradas, onde querer tanto assim incomoda. e dói. e fere porque o espelho reflete as suas duas mãos atadas, sua boca trancada e o seu peito então, nem se fala! ele já é quase que só buraco negro.
e hoje eu não quero ter forças pra procurar meus lápis e canetas coloridos pra pintá-lo. eu não quero querer nada a não ser dormir. eu não quero sair, nem me mexer, por favor me deixem só aqui na minha cama escorregando com o meu edredom cor de rosa, a minha tosse que não passa e meus livros novos me olhando de dentro do armário com cara de dó. eu não quero música nem poesia. e nem ninguém por perto. ninguém que não me abrace até fazer passar todo o meu mal e toda a fome do mundo, que não me diga o quanto não se importa que eu chore e que meu nariz escorra tanto enquanto eu choro, que não entenda quando eu acordar no meio da noite querendo recomeçar toda essa crise, e que não me ache uma louca por acordar amanhã sem nem me lembrar de toda a falta de ar que eu senti hoje.
tem sempre um buraco negro que se abre no meu peito pelas coisas que eu perdi sem nunca ter tido. talvez seja uma espécie de desesperança, ou apenas uma dose de pessimismo e realidade que me contam a verdade desse nunca ter tido. pessimismo e realidade andam quase sempre juntos. e não é que eu seja uma pessoa pessimista, mas é que as vezes eu sou mesmo assim, preto no branco.
tem ainda as coisas que eu tenho, as que eu não tenho, as que eu minto ter. todas elas eu quero. todas, absolutamente todas, por completo, recheadas até a borda. e talvez seja só pra depois ter me arrependido do querer. ou talvez por simples necessidade de se querer alguma coisa, essa necessidade que funciona como guincho, como uma corda que leva a gente pra frente. não querer nada deve ser sem graça porque a gente acaba ficando parado no lugar.
é por isso que eu quero tanto minhas bombas extra de ar, quero vira-tempos pra poder ser quatro de uma vez, quero minha casa, quero colo de mãe, quero fazer alguma coisa que seja verdade, quero escrever alguma coisa que mude a vida de alguém, quero tomar conta de tudo sem ser uma rabugenta por causa disso, quero ser menos chata e boazinha, quero falar bem menos, escrever mais e parar de fantasiar as coisas.
o problema nessa história de querer é que sempre tem umas horas, umas horas tristes e demoradas, onde querer tanto assim incomoda. e dói. e fere porque o espelho reflete as suas duas mãos atadas, sua boca trancada e o seu peito então, nem se fala! ele já é quase que só buraco negro.
e hoje eu não quero ter forças pra procurar meus lápis e canetas coloridos pra pintá-lo. eu não quero querer nada a não ser dormir. eu não quero sair, nem me mexer, por favor me deixem só aqui na minha cama escorregando com o meu edredom cor de rosa, a minha tosse que não passa e meus livros novos me olhando de dentro do armário com cara de dó. eu não quero música nem poesia. e nem ninguém por perto. ninguém que não me abrace até fazer passar todo o meu mal e toda a fome do mundo, que não me diga o quanto não se importa que eu chore e que meu nariz escorra tanto enquanto eu choro, que não entenda quando eu acordar no meio da noite querendo recomeçar toda essa crise, e que não me ache uma louca por acordar amanhã sem nem me lembrar de toda a falta de ar que eu senti hoje.
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