eu sinto falta de todas as palavras que eu não disse. aqui e lá. ah, não pense que elas não vieram, é tolice sua pensar assim.. elas vieram sim, vieram de enxurrada como sempre vem, trombando umas nas outras, atropelando-se, arrancando a unha do dedo mindinho do pé de tanta pressa. mas acontece que eu vendi minha alma ao tempo. (devo ter emprestado minhas ideologias toscas pra ele também.) é, eu dei pra ele. dei o meu tédio, a minha vontade, e dei tanta falta de vontade também. dei um tantinho de desprezo, despeito talvez.
o tempo é aquele reloginho desbotado da sua cabeceira, mas mais normalmente da sua cabeça mesmo. eu acho tão engraçado imaginá-lo tic-tac-queando como se me apressasse pras tantas coisas que eu não tenho que fazer. e de repente, tenho! ou melhor, tive, por que não dá mais tempo de fazê-las, o tempo delas já passou. você tá cansado de me ouvir reclamar e falar de tempo? é eu sei, eu também estou, também sou. eu sou cansada disso e de uma porção de outras coisas, mas isso são vícios, e você sabe como os vícios são. são vícios, oras! não dá pra largar assim do nada, exige todo um processo de adaptação. e definitivamente eu não sou boa nesse tipo de adaptação, nem adianta! eu continuo corcunda e mordendo os lábios e escrevendo em minúsculas e procurando conclusões para textos que não precisam tê-las e sendo agradável com quem eu não quero ser e dando nós nos meus cabelos já meio quebrados. ah, e eu ranco as minhas unhas e pelinhas da boca, de nervoso. eu também tenho gastrite de nervoso, e enxaqueca, e alguma coisa nos olhos que eu não sei o que é por que o médico não tem tempo pra mim (lá vamos nós pro tempo de novo!). e eu ainda tenho ciúmes. e medo.
e ainda tenho um vício, terrivelmente insuportável, que é falar de mim. falar esse monte de coisas reclamonas, desagradáveis e chatas e injustificáveis porque você não me pediu pra falá-las. eu deveria fechar o blog pra calar a boca. mas ele já fica tão de férias sempre que nem faz diferença não. vê se acostuma, tá? vai ser sempre assim. um velho vício, pros velhos vícios. e pronto, chega, minha boca já secou, ponto final.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
domingo, 2 de março de 2008
alterego
ela vivia metida nos seus próprios sonhos. filha de uma geração que assistia a Xuxa dizer com seu sotaque carioca: 'não desista dox seux sonhox', ela aprendeu a assistí-los e interrogá-los, esquadrinhando perspectivas e analisando concretizações. aprendeu assim a sonhar comedidamente. sonhava com o que podia sonhar, com o que acreditava possível. deixe a Xuxa com seus sonhos impossíveis para lá. era idealista sim, admitia, mas era da sua maneira. um idealismo fingido que só ia até onde as mãos alcançavam. irritava-se com a hipocrisia e incapacidade daqueles sonhadores de mais, onde tudo é bonito de mais, possível de mais. sentia-se por vezes meio pessimista, porque desacreditava de mais.
mas era exatamente aí que morava a contradição. ela analisava tanto que acabava achando o jeito certo, a frestra por onde deixar os seus sonhos entrar. e era facilmente enganada por eles, que fingiam-se simples para que ela lhes desse passagem. se instalavam, folgados, e ela dizia: tá legal, fica aí. mas escondia-os logo que alguém os notava. escondia, olhava para os lados, disfarçava. negava de pé junto: não, não, esse sonho não é meu.
era sonhadora e hipócrita, como qualquer um.
mas era exatamente aí que morava a contradição. ela analisava tanto que acabava achando o jeito certo, a frestra por onde deixar os seus sonhos entrar. e era facilmente enganada por eles, que fingiam-se simples para que ela lhes desse passagem. se instalavam, folgados, e ela dizia: tá legal, fica aí. mas escondia-os logo que alguém os notava. escondia, olhava para os lados, disfarçava. negava de pé junto: não, não, esse sonho não é meu.
era sonhadora e hipócrita, como qualquer um.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
velho, novo
estava vazia de palavras. não de idéias, essas continuavam estourando feito pipoca na panela. eu passara todo o tempo com aquele velho olhar parado, e igualmente vazio. a cabeça feito pipoca, os papéis e o mundo cheio de números. improdutivos.
e ai eu quis o teu abraço como eu sempre quero quando meu corpo esfria. meus pés eram pedras de gelo, minhas unhas pintaram-se de rosa, de raso. o sol lá fora contrastava com a minha palidez.
era aquela velha tristeza bonita, eu diria até necessária. cor de mais enjoa, de vez enquando é bom sentir o cinza das coisas rabiscarem feito grafite. grafite 0.5, mais fino, mais fraco, mais fácil de apagar.
e ai eu quis o teu abraço como eu sempre quero quando meu corpo esfria. meus pés eram pedras de gelo, minhas unhas pintaram-se de rosa, de raso. o sol lá fora contrastava com a minha palidez.
era aquela velha tristeza bonita, eu diria até necessária. cor de mais enjoa, de vez enquando é bom sentir o cinza das coisas rabiscarem feito grafite. grafite 0.5, mais fino, mais fraco, mais fácil de apagar.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
o céu da estrada
por mais que olhasse para os lados, e para a vida que insistia em seguir, só conseguia voltar ao mesmo ponto. aquele aonde grande parte dos seus fluxos de pensamentos haviam ficado.
eram dois corpos dentro de um carro. (corpos vivos, não pense numa tragédia só porque eu disse corpos). corpos unidos por aquelas horas gigantescas que são as horas que se passa viajando dentro de um carro e por algumas coisas a mais, que agora certamente não vem ao caso. era um casal. menina menino, homem mulher, tanto faz. ela deitava a cabeça no colo dele e perseguia nuvens, contornando-as com seus textos mentais, e entreolhava aquele outro rosto que perseguia o asfalto, cada curva cada ultrapassagem. e ela ria porque era exatamente assim que os dois eram e não havia dúvidas e nem disfarces pra quem viaja horas junto dentro de um carro. ela via o céu, e ele a estrada. (se eu dissesse que ele via o chão seria muito pouco poético, mas nesse caso, serve também). era simples assim. um via uma porção de sonho, e o outro o mantinha com os pés nos chão.
eram dois corpos dentro de um carro. (corpos vivos, não pense numa tragédia só porque eu disse corpos). corpos unidos por aquelas horas gigantescas que são as horas que se passa viajando dentro de um carro e por algumas coisas a mais, que agora certamente não vem ao caso. era um casal. menina menino, homem mulher, tanto faz. ela deitava a cabeça no colo dele e perseguia nuvens, contornando-as com seus textos mentais, e entreolhava aquele outro rosto que perseguia o asfalto, cada curva cada ultrapassagem. e ela ria porque era exatamente assim que os dois eram e não havia dúvidas e nem disfarces pra quem viaja horas junto dentro de um carro. ela via o céu, e ele a estrada. (se eu dissesse que ele via o chão seria muito pouco poético, mas nesse caso, serve também). era simples assim. um via uma porção de sonho, e o outro o mantinha com os pés nos chão.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2007
menina-estrela
o fato é que eu vi uma menina parada ali nas memórias que eu não sei se tenho. dedos curtos sem o esmalte vermelho descascado de hoje. não serviria pro piano, diriam. mas ela sempre quis. depois desistiu, e quis o violão. desistiu de novo. ficou com a voz. sobrou-lhe, entre tantos os instrumentos que o pai estendia na sala, o fiapo de voz que ganhara da fada madrinha. ficou de aperfeiçoar, mas deixou pra outro dia. foi se meter com dança, mas a menina mal sabia se mexer. e ficou pela metade outra vez. até que encontrou o teatro e o figurino e as máscaras. aquilo, aquilo sim é que era vida. mas acontece que ela nem tinha tanto talento assim. tinha idéia. e largou o teatro e ficou com as idéias. remoendo, remoídas, projetadas, estrategicamente organizadas. e as idéias permaneceram perturbando-a até explodirem dedos a fora. saíam daqueles mesmo dedos curtos de outrora, saltitantes, coloridas feito borboletas, saíam deixando um rastro de pólen. a menina se encantou com tanta beleza. na verdade, ela nem achava que era de fato tão boa assim, mas quis acreditar e isso bastou. e então ela depositou todas as fichas que tinha, nas próprias palavras.
domingo, 9 de dezembro de 2007
pseudo-conclusões de menina
o fato é que eles não entendem mesmo.
não entendem quando a gente escreve ou quando a gente não quer dizer. não entendem quando a gente chora sem motivo, ou quando fica carente e desesperada por eles. não entendem quando a gente diz 'não' querendo dizer 'sim', ou quando finge que tá tudo bem quando no fundo tá tudo péssimo. não entendem quando a gente precisa que eles adivinhem ou que sejam meigos ou que sejam brutos. não entendem quando a gente faz tudo para que eles reparem ou quando faz tudo para que não reparem, por favor.
eles nunca sabem mesmo o que fazer. e não é que a gente saiba, pelo contrário. a gente sabe bem menos que eles. é por isso que precisamos mesmo deles, porque alguém tem que saber pra gente. é uma dependência besta, eu sei! deve ser por isso que nós nunca ficamos satisfeitas completamente, por mais completas que estejamos. não dá. a gente tá sempre querendo mais e esperando mais deles e de nós mesmas, e fica trocando de amor pra tentar encontrar alguém que termine as suas frases do jeito que você imaginou.
até que você encontra. e essa pessoa é tão ridiculmente imperfeita que você custa a acreditar. e fica desacreditando, e eles continuam não entendendo, e você aprende, definitivamente, que não dá mesmo pra entender tudo.
ps: pra nana, que me pede pra postar e me ensinou a escrever 'a gente' separado. e pra aline, que me levou às conclusões.
algumas da minhas meninas.
não entendem quando a gente escreve ou quando a gente não quer dizer. não entendem quando a gente chora sem motivo, ou quando fica carente e desesperada por eles. não entendem quando a gente diz 'não' querendo dizer 'sim', ou quando finge que tá tudo bem quando no fundo tá tudo péssimo. não entendem quando a gente precisa que eles adivinhem ou que sejam meigos ou que sejam brutos. não entendem quando a gente faz tudo para que eles reparem ou quando faz tudo para que não reparem, por favor.
eles nunca sabem mesmo o que fazer. e não é que a gente saiba, pelo contrário. a gente sabe bem menos que eles. é por isso que precisamos mesmo deles, porque alguém tem que saber pra gente. é uma dependência besta, eu sei! deve ser por isso que nós nunca ficamos satisfeitas completamente, por mais completas que estejamos. não dá. a gente tá sempre querendo mais e esperando mais deles e de nós mesmas, e fica trocando de amor pra tentar encontrar alguém que termine as suas frases do jeito que você imaginou.
até que você encontra. e essa pessoa é tão ridiculmente imperfeita que você custa a acreditar. e fica desacreditando, e eles continuam não entendendo, e você aprende, definitivamente, que não dá mesmo pra entender tudo.
ps: pra nana, que me pede pra postar e me ensinou a escrever 'a gente' separado. e pra aline, que me levou às conclusões.
algumas da minhas meninas.
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
menino das seis cordas
sol sol sol. pra quê tanto sol assim, meu deus?! ele via pela janela as pessoas que passavam na rua com testas enrugadas pelo sol. maldita hora que tinham deixado ele sentar ali, onde o sol batia mais forte. de certo que era pra ver se ele derretia. mas eles não sabiam que era exatamente ali onde o sol batia, que batia também a brisa mais leve e doce que se pode haver. ele não lembrou disso exatamente, mas sabia que era a brisa que 'desaguniava'.
pra queê estudar aquilo, meu deus?! ele não via utilidade nenhuma em decorar a tabuada. decorar era tão feio e difícil. ele só sabia decorar quando ninguém mandava. sabia uma porção de música e até uns versos que a mãe ensinou. ensinou como quem num quer nada, porque conhecia o filho que tinha. queria ver o menino falar bonito que nem o povo da tevê. e num é que o menino tinha talento? vivia falando os versinho pelos canto, cantava uns sambinha velho e ela nem entendia direito. um dia perguntou: 'menino, essa música é do tempo que eu era noviinha! onde cê aprendeu isso?' ele riu e disse: 'aprendi vendo, mãe.'
e era assim que ele aprendia. só vendo. e como via! reparava coisa como ninguém mais. era danado que só. mas ficava aguniado era de ter que ficar com a bunda grudada na cadeira da escola vendo os outros repetirem a professora, enquanto a mãe lavava aquela pilha imensa de roupa sozinha. ficava entediado porque num dava conta, num podia ser assim. queria era sair pra fora. levantar e sair dali correndo, ganhar a liberdade que ele nem sabia o que significava. ele gostava da escola. gostava mesmo, tinha boas notas e tudo o mais, mas sentar na janela fazia ele pensar nessas coisas todas.
pra queê tanta nuvem, meu deus?! mas logo mudava de idéia, as nuvens refrescavam tudo. ou pelo menos era o que ele achava. ele olhava as nuvens brancas e o azul do céu, e lembrava de bola de gude e da mãe. mãe era bonita que só vendo, tinha um cabelo bonito que caía no rosto quando ela tava feliz. e ai ele abraçava ela e cantava porque sabia que ela gostava de ver ele cantar. aprendia as músicas pra ela. gostava de deixar feliz, fazia só pra agradar mesmo. mas no fundo o que ele mais gostava era dos versinho. as nuvens deixavam ele com vontade de fazer verso também. e foi olhando pra elas, espremendo o olhinho por causa do sol, que ele decidiu que ia ser gente grande. ia mesmo, só pra agradar a mãe. e ia ser grande fazendo os versinho que ele tanto gostava, que tanto queria, que tanto escrevia todas as vezes que olhava pro céu.
ps: bruninho, desculpa o plágio. roubei seu menino pra mim ;)
pra queê estudar aquilo, meu deus?! ele não via utilidade nenhuma em decorar a tabuada. decorar era tão feio e difícil. ele só sabia decorar quando ninguém mandava. sabia uma porção de música e até uns versos que a mãe ensinou. ensinou como quem num quer nada, porque conhecia o filho que tinha. queria ver o menino falar bonito que nem o povo da tevê. e num é que o menino tinha talento? vivia falando os versinho pelos canto, cantava uns sambinha velho e ela nem entendia direito. um dia perguntou: 'menino, essa música é do tempo que eu era noviinha! onde cê aprendeu isso?' ele riu e disse: 'aprendi vendo, mãe.'
e era assim que ele aprendia. só vendo. e como via! reparava coisa como ninguém mais. era danado que só. mas ficava aguniado era de ter que ficar com a bunda grudada na cadeira da escola vendo os outros repetirem a professora, enquanto a mãe lavava aquela pilha imensa de roupa sozinha. ficava entediado porque num dava conta, num podia ser assim. queria era sair pra fora. levantar e sair dali correndo, ganhar a liberdade que ele nem sabia o que significava. ele gostava da escola. gostava mesmo, tinha boas notas e tudo o mais, mas sentar na janela fazia ele pensar nessas coisas todas.
pra queê tanta nuvem, meu deus?! mas logo mudava de idéia, as nuvens refrescavam tudo. ou pelo menos era o que ele achava. ele olhava as nuvens brancas e o azul do céu, e lembrava de bola de gude e da mãe. mãe era bonita que só vendo, tinha um cabelo bonito que caía no rosto quando ela tava feliz. e ai ele abraçava ela e cantava porque sabia que ela gostava de ver ele cantar. aprendia as músicas pra ela. gostava de deixar feliz, fazia só pra agradar mesmo. mas no fundo o que ele mais gostava era dos versinho. as nuvens deixavam ele com vontade de fazer verso também. e foi olhando pra elas, espremendo o olhinho por causa do sol, que ele decidiu que ia ser gente grande. ia mesmo, só pra agradar a mãe. e ia ser grande fazendo os versinho que ele tanto gostava, que tanto queria, que tanto escrevia todas as vezes que olhava pro céu.
ps: bruninho, desculpa o plágio. roubei seu menino pra mim ;)
sexta-feira, 2 de novembro de 2007
bem passado
hoje é dia de finados. sempre achei estranho isso, um dia de finados ou para os finados. eles não tem calendário, pra contar dia após dia, quantos dias faltam pra ter um dia pra eles. eu não cultivo mortos, nem túmulos, nem flores. e por isso, o dia não teve nenhum cheiro de morte. aliás, enfim, a chuva veio. e dizem os mais velhos ou mais atentos, que nesse dia ela sempre vem. "é a chuva de finados", diria a minha avó.
a chuva levou consigo o calor e trouxe renovação. é bonito ver como as árvores sempre ficam mais verdes, depois dela. meu antigo quintal sempre ficava mais alegre depois da chuva, dava pra sentir. a gente olhava da janela e via a grama sorrir.
veio a chuva, e a saudade. essa saudade doce que é relembrar tempos passados, relembrar momentos, cheiros, cores, poses pra fotografia. chamam de saudosismo. chamem-me de saudosista. essas lembranças chegam em longas histórias até os meus ouvidos, como um filme em preto e branco que eu nunca vi. o meu corpo se arrepia e o meu coração respira lento pra absorver melhor.
o dia chegaria ao final perfeitamente encaixado num disco de vinil. ou num daqueles velhos sambas que só eu pareço ouvir.
a chuva levou consigo o calor e trouxe renovação. é bonito ver como as árvores sempre ficam mais verdes, depois dela. meu antigo quintal sempre ficava mais alegre depois da chuva, dava pra sentir. a gente olhava da janela e via a grama sorrir.
veio a chuva, e a saudade. essa saudade doce que é relembrar tempos passados, relembrar momentos, cheiros, cores, poses pra fotografia. chamam de saudosismo. chamem-me de saudosista. essas lembranças chegam em longas histórias até os meus ouvidos, como um filme em preto e branco que eu nunca vi. o meu corpo se arrepia e o meu coração respira lento pra absorver melhor.
o dia chegaria ao final perfeitamente encaixado num disco de vinil. ou num daqueles velhos sambas que só eu pareço ouvir.
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
conto de minuto
ela olhava procurando desesperadamente ler em seus olhos o que ele pensava. quem sabe descobrindo o que ele pensava, saberia o que pensar também.
tirou seus cabelos da testa pra sentir o sal. colocou as mãos dele entre as suas, entrelaçou os dedos o máximo que pôde e beijou-os um a um.
ensaiou por alguns segundos a sua voz mais doce, pra poder dizer aquilo que era o que ela mais queria. seria melhor dizer: "fica assim comigo pra sempre?" ou "fica aqui pra sempre?" ou seria fique, pra soar mais bonito e gramaticalmente correto? acabou rindo um riso interno e bonito de quem ri de si pra si. calou o riso, engoliu a frase, voltou pra dúvida.
ele a beijou com a cara cansada mais bonita que se pode ter ao beijar alguém. ou pelo menos foi o que ela pensou. e então ela desistiu de dizer. sorriu seu sorriso torto que ele amava, desceu as escadas, e pra não ter que pedir e ouvir a resposta, ela foi embora.
tirou seus cabelos da testa pra sentir o sal. colocou as mãos dele entre as suas, entrelaçou os dedos o máximo que pôde e beijou-os um a um.
ensaiou por alguns segundos a sua voz mais doce, pra poder dizer aquilo que era o que ela mais queria. seria melhor dizer: "fica assim comigo pra sempre?" ou "fica aqui pra sempre?" ou seria fique, pra soar mais bonito e gramaticalmente correto? acabou rindo um riso interno e bonito de quem ri de si pra si. calou o riso, engoliu a frase, voltou pra dúvida.
ele a beijou com a cara cansada mais bonita que se pode ter ao beijar alguém. ou pelo menos foi o que ela pensou. e então ela desistiu de dizer. sorriu seu sorriso torto que ele amava, desceu as escadas, e pra não ter que pedir e ouvir a resposta, ela foi embora.
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
você viver mais
-sabe pai, eu tenho um blog. é, um blog, uma daquelas coisinhas de internet que todo mundo cismou de ter de uns tempos pra cá. eu também cismei. sabe, já tem até um tempinho. já tem um bocado de textos e de lembranças por lá. e sabe, eu sempre quis te mostrar, eu juro. mas me faltou coragem. eu fiz um blog pra poder ser idealista nele e mais realista fora dele. exatamente como você quis. às vezes eu acho que é tudo pra você. que eu escrevo pra você. é que tirando uns dias poucos, eu continuo te enxergando de azul e vermelho e um S no peito. ou melhor, eu continuo te exergando despindo a roupa de papai noel, que você nunca despiu por inteiro.
-sabe pai, eu quero tanto que você se orgulhe. acho que é por isso que eu venho lutando todos os dias, desses dez últimos anos. e quando eu vejo as minhas pernas curtas e o meu quarto lilás, é que eu enxergo as outras dezenas de anos que eu vou ter de continuar lutando. eu prometi, e disso você também não sabia. naquele dia no bosque, eu prometi. e ninguém nunca vai entender minhas promessas, e o meu empenho, e muito menos o meu amor. talvez, nem eu.
-sabe pai, eu queria muito que você lesse. que você me lesse. no fundo é um monte de besteiras, mas eu mesma nem acredito nisso mais. existe uma verdade enorme nisso tudo aqui, não é por acaso que ele veio a se chamar espelho. sabe, eu tenho até uns leitores bem assíduos pra falar a verdade. e é engraçado como eles me olham, e até me aplaudem com umas exclamações cheias de entusiasmo. é bonitinho que só. e eu me renovo de vontades de continuar me derramando pra eles a cada exclamação dessas, porque não há ego que resista, eu confesso.
-sabe pai, tem tanta coisa que eu queria que você soubesse. tem tanta história que eu queria contar, tanto tempo que eu queria voltar, tanta música preu te cantar. mas eu tô crescendo sem querer crescer. eu não posso mais te chamar a noite por um mau presságio, nem adoecer porque você viajou e nem chorar lendo pra você um desses meus textos bobos. eu preciso ser grande, e forte, e não mais a "rapa do tacho" insensível sendo a mais sensível de todas, porque puxou de você a alma de artista.
-sabe pai, às vezes o que eu mais queria era voltar pro bosque. e andar por entre os galhos deitados e folhas caídas. só por mais um dia. pra não esquecer das poucas imagens que eu ainda não esqueci. e engolir menos o choro, e cantar nossas músicas outras vezes, e te ouvir falar todas as suas coisas por horas e horas. e fazer igual a Takai e escrever uma canção pra você viver mais.
-sabe pai, eu quero tanto que você se orgulhe. acho que é por isso que eu venho lutando todos os dias, desses dez últimos anos. e quando eu vejo as minhas pernas curtas e o meu quarto lilás, é que eu enxergo as outras dezenas de anos que eu vou ter de continuar lutando. eu prometi, e disso você também não sabia. naquele dia no bosque, eu prometi. e ninguém nunca vai entender minhas promessas, e o meu empenho, e muito menos o meu amor. talvez, nem eu.
-sabe pai, eu queria muito que você lesse. que você me lesse. no fundo é um monte de besteiras, mas eu mesma nem acredito nisso mais. existe uma verdade enorme nisso tudo aqui, não é por acaso que ele veio a se chamar espelho. sabe, eu tenho até uns leitores bem assíduos pra falar a verdade. e é engraçado como eles me olham, e até me aplaudem com umas exclamações cheias de entusiasmo. é bonitinho que só. e eu me renovo de vontades de continuar me derramando pra eles a cada exclamação dessas, porque não há ego que resista, eu confesso.
-sabe pai, tem tanta coisa que eu queria que você soubesse. tem tanta história que eu queria contar, tanto tempo que eu queria voltar, tanta música preu te cantar. mas eu tô crescendo sem querer crescer. eu não posso mais te chamar a noite por um mau presságio, nem adoecer porque você viajou e nem chorar lendo pra você um desses meus textos bobos. eu preciso ser grande, e forte, e não mais a "rapa do tacho" insensível sendo a mais sensível de todas, porque puxou de você a alma de artista.
-sabe pai, às vezes o que eu mais queria era voltar pro bosque. e andar por entre os galhos deitados e folhas caídas. só por mais um dia. pra não esquecer das poucas imagens que eu ainda não esqueci. e engolir menos o choro, e cantar nossas músicas outras vezes, e te ouvir falar todas as suas coisas por horas e horas. e fazer igual a Takai e escrever uma canção pra você viver mais.
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